Como funciona a terapia CAR-T, tratamento que manteve Sam Neill em remissão do câncer até sua morte
— Foto: Divulgação – G1
Ator neozelandês morreu aos 78 anos e permaneceu em remissão de um linfoma não Hodgkin após receber a terapia CAR-T. Tratamento já está disponível no Brasil para casos específicos, mas ainda enfrenta limitações de acesso
O ator neozelandês Sam Neill morreu aos 78 anos nesta segunda-feira (13), em Sydney, na Austrália, após permanecer em remissão de um linfoma não Hodgkin graças à terapia CAR-T. A causa da morte não foi divulgada pela família, que informou que o artista continuou livre do câncer até o fim da vida.
Após a quimioterapia deixar de controlar a doença, Neill recebeu a terapia celular, que modifica células do próprio sistema imunológico para reconhecer e combater o tumor. O tratamento já tem aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para alguns tipos de câncer do sangue, embora o acesso ainda seja restrito no Brasil.
O que você precisa saber
- O fato: Sam Neill permaneceu em remissão após receber a terapia CAR-T.
- Quando: O ator morreu nesta segunda-feira (13).
- Onde: Sydney, na Austrália.
- Importa porque: A terapia CAR-T já é utilizada no Brasil para casos específicos e pode oferecer remissões prolongadas em alguns pacientes.
A terapia usa as próprias células de defesa do paciente
Diferentemente da quimioterapia, que atinge células de rápida multiplicação, a terapia CAR-T utiliza os linfócitos T do próprio paciente. Essas células são retiradas do organismo, modificadas geneticamente em laboratório e depois reinfundidas para reconhecer proteínas presentes nas células cancerígenas e destruí-las.
Segundo o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, o procedimento reprograma os linfócitos para identificar o tumor antes de devolvê-los ao organismo. A estratégia fortalece a resposta imunológica contra o câncer.
Tratamento é indicado para alguns cânceres do sangue
Atualmente, a terapia CAR-T é aprovada para determinados casos de leucemias, linfomas e mieloma múltiplo. Em geral, ela é indicada para pacientes cujo câncer voltou após o tratamento ou deixou de responder às terapias convencionais.
Foi esse o quadro enfrentado por Sam Neill. Diagnosticado em 2023 com um linfoma não Hodgkin em estágio avançado, o ator recebeu a terapia após a perda de resposta à quimioterapia e anunciou recentemente que seus exames não apresentavam mais sinais da doença.
Pesquisas brasileiras avançam na produção nacional
Além dos produtos já aprovados pela Anvisa, instituições brasileiras trabalham no desenvolvimento de versões nacionais da terapia. Em junho deste ano, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Instituto Butantan, divulgaram resultados preliminares de um estudo clínico com uma CAR-T produzida no Hemocentro de Ribeirão Preto.
Segundo a equipe de pesquisa, 87,5% dos pacientes com linfoma não Hodgkin apresentaram redução importante ou desaparecimento do tumor. O tratamento foi produzido integralmente no Brasil e ainda depende das próximas fases de pesquisa e do registro na Anvisa para uma futura avaliação de incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Outro estudo conduzido pelo Hospital Israelita Albert Einstein mostrou resposta ao tratamento em 81% dos pacientes com leucemias e linfomas avançados, enquanto 72% alcançaram remissão completa. O projeto recebeu financiamento do Ministério da Saúde por meio do Proadi-SUS.
Alto custo ainda limita o acesso no Brasil
Apesar dos avanços científicos, a terapia CAR-T continua disponível para um número reduzido de pacientes. O tratamento comercial pode custar entre R$ 2 milhões e R$ 4 milhões por pessoa e exige hospitais especializados para realizar a coleta, a modificação das células e o acompanhamento de possíveis efeitos adversos.
Estudos também apontam desafios relacionados ao financiamento, ao número limitado de centros habilitados e à necessidade de infraestrutura para produzir a terapia em larga escala. Segundo Stephen Stefani, parte dos pacientes acaba sem acesso ao tratamento antes da evolução da doença.
Ampliação do acesso depende de novos registros e políticas públicas
Especialistas afirmam que a ampliação do acesso depende do registro de novas terapias na Anvisa, da análise pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), da definição de modelos de financiamento e da expansão dos centros especializados no país.
Pesquisadores também estudam a aplicação da terapia CAR-T contra tumores sólidos, como câncer de pulmão, mama e cérebro. Esses estudos ainda estão em fase inicial e não fazem parte das indicações atualmente aprovadas. Em casos de câncer, a definição do tratamento deve ser feita por uma equipe médica especializada.
Fonte: G1
